sábado, 17 de julho de 2010

" Carta para Josefa, minha avó "


Tens noventa anos. És velha, dolorida. Dizes-me que foste a mais bela rapariga do teu tempo – e eu acredito. Não sabes ler. Tens as mãos grossas e deformadas, os pés encortiçados. Carregaste à cabeça toneladas de restolho e lenha, albufeiras de água. Viste nascer o sol todos os dias. De todo o pão que amassaste se faria um banquete universal. Criaste pessoas e gado, meteste os bácoros na tua própria cama quando o frio ameaçava gelá-los. Contaste-me histórias de aparições e lobisomens, velhas questões de família, um crime de morte. Trave da tua casa, lume da tua lareira – sete vezes engravidaste, sete vezes deste à luz.
Não sabes nada do mundo. Não entendes de política, nem de economia, nem de literatura, nem de filosofia, nem de religião. Herdaste umas centenas de palavras práticas, um vocabulário elementar. Com isto viveste e vais vivendo. És sensível às catástrofes e também aos casos de rua, aos casamentos de princesas e ao roubo dos coelhos da vizinha. Tens grandes ódios por motivos de que já perdeste a lembrança, grandes dedicações que assentam em coisa nenhuma. Vives. Para ti, a palavra Vietname é apenas um som bárbaro que não condiz com o teu círculo de légua e meia de raio. Da fome sabes alguma coisa: já viste uma bandeira negra içada na torre da igreja. (Contaste-me tu, ou terei sonhado que o contavas?) Transportas contigo o teu pequeno casulo de interesses. E, no entanto, tens os olhos claros e és alegre. O teu riso é como um foguete de cores. Como tu, não vi rir ninguém.
Estou diante de ti, e não entendo. Sou da tua carne e do teu sangue, mas não entendo. Vieste a este mundo e não curaste de saber o que é o mundo. Chegas ao fim da vida, e o mundo ainda é, para ti, o que era quando nasceste: uma interrogação, um mistério inacessível, uma coisa que não faz parte da tua herança: quinhentas palavras, um quintal a que em cinco minutos se dá a volta, uma casa de telha-vã e chão de barro. Aperto a tua mão calosa, passo a minha mão pela tua face enrijada e pelos teus cabelos brancos, partidos pelo peso dos carregos – e continuo a não entender. Foste bela, dizes, e bem vejo que és inteligente. Por que foi então que te roubaram o mundo? Mas disto talvez entenda eu, e dir-te-ia o como, o porquê e o quando se soubesse escolher das minhas inumeráveis palavras as que tu pudesses compreender. Já não vale a pena. O mundo continuará sem ti – e sem mim. Não teremos dito um ao outro o que mais importava.
Não teremos realmente? Eu não te terei dado, porque as minhas palavras não são as tuas, o mundo que te era devido. Fico com esta culpa de que me não acusas – e isso ainda é pior. Mas porquê, avó, porque te sentas tu na soleira da tua porta, aberta para a noite estrelada e imensa, para o céu de que nada sabes e por onde nunca viajarás, para o silêncio dos campos e das árvores assombradas, e dizes, com a tranquila serenidade dos teus noventa anos e o fogo da tua adolescência nunca perdida: “O mundo é tão bonito, e eu tenho tanta pena de morrer!”.
É isto que eu não entendo – mas a culpa não é tua.
 
“Carta para Josefa, minha avó”, publicada por Saramago, em 14 de Março de 1968, no jornal lisboeta “A Capital”

3 comentários:

Valdemar disse...

Muito sinceramente também uma avó que partiu me deixou essa imagem de que fala o autor.
Infelizmente esse exemplo não me transmitiu a avó pelo lado paterno que não era dotada desse bem.
Esses valores e muitas coisas se identificam o que foi o meu avó paterno, já que o materno já tinha partido quando nasci.
Esta lição serve para as minhas filhas, porque tudo isso lhe foi deixado pela minha Mãe.
Paarabéns pela brilhante ideia da públicação.

Piko disse...

Ainda bem que o Oliveira teve o descernimento de trazer até nós um texto com 42 anos e onde já se via o estilo bem enraizado que chegou até aos nossos dias... Claro, só falta o tal desenho, para algumas pessoas entenderem melhor este grande escritor de raízes populares, mas, como seria possível um tal desenho em que coubessem as palavras, que correspondessem ao que Saramago tinha para nos dizer?!
Pela minha parte fiquei feliz com a descoberta deste texto!
PIKÓ

Anónimo disse...

Não conheço o autor deste blog, aliás não conhecia o blog,aterrei aqui por acaso ou por um bendito acaso.Fiquei a gostar do blog assim que dei com o video dos Procol Harum, que saudades.Mas o melhor estava guardado mais à frente,melhor dizendo mais abaixo:A carta de Saramago à avó,um dos mais belos textos que li ate até hoje.A ouvir Procol Harum e a ler esta maravilha, como sou um "maricas" aconteceu o inevitável:chorei.Pronto porra,chorei e senti-me bem. Bem haja.Um abraço.